Luz, Sombra, Amor e Ascensão Planetária

Acompanha-me muitas vezes o sentimento de consciência perdida no meio da infinidade cósmica... de uma consciência que sabendo estar espalhada por multiversos multdimensionais superpopulados... não deixa de estar num mundo físico muito concreto que no seu quotidiano encontra realidades que aparentemente pouco estão relacionadas com as certezas e vivências que tenho em estados que alguns poderão dizer de consciência alterada.

 

Tenho a certeza que este sentimento não é único. É um sentimento que creio ser base de toda a humanidade que tem em cada um dos seus individuais representantes a máxima luz como também as profundas trevas. Muitas pessoas que me procuram falam desta sensação de orfandade espiritual... da certeza intima e profunda de existir uma energia máxima neste universo, de guias, de amigos espirituais, de uma família espiritual que espera o melhor de nós e que anseia o nosso regresso mas que desaparece completamente quando ao nosso filho é detetado um cancro, quando estamos sem emprego, quando não sabemos que caminhos escolher, quando somos traídos por quem mais amamos, quando sofremos num casamento, quando sofremos porque não encontramos ninguém com quem partilhar a nossa vida... Nesses momentos... por mais certezas que tenhamos quanto ao facto de pertencermos ao tais multiversos multdimensionais superpopulados, sentimo-nos consciências solitárias e perdidas...

 

Bom é que nós, humanidade, temos um gosto incrível por registar tudo o que se vai se passando por este planeta. Este vício humano pode redundar em edifícios inteiros de arquivo morto com atas arquivadas interessantíssimas que registam ao pormenor discussões acerca de uma decisão que terá impacto nulo numa empresa, como podem resultar em textos maravilhosos que narram as dúvidas e as angústias de grandes mestres espirituais.

 

Este meu sentimento de orfandade, este sentimento que também é das pessoas que me procuram, também foi o de Buda e o de Jesus. É o sentimento que esteve por detrás da procura de Buda pelo caminho que no seu intimo sabia existir mas que na prática quotidiana não encontrava, levando-o a entrar tanto em contacto com uma vida palaciana de opulência como a abnegação extrema em qualquer recanto de uma floresta perdida. É o sentimento que esteve por detrás do grito de Jesus pregado na cruz “Eli Eli Lama Sabachthani?” (Meu Deus, Meu Deus, Porque me abandonaste?) que nesse momento parafraseou uma parte de um salmo escrito muitos anos antes pelo Rei David:

 

“Meu Deus, Meu Deus, porque me abandonaste, longe do meu clamor e do meu grito? De dia eu clamo, ó Deus, e não respondes; clamo por ti de noite, e não atendes! … Desde que fui gerado me conduzes, de minha mãe ao seio me abrigaste. Desde que vim à luz te fui entregue, desde o ventre eterno és o meu Deus! Atribulado estou, não fiques longe; não tenho quem me ajude, vem a mim!” (Salmo 21)

 

Sombra e luz... O sentimento de orfandade é o sentimento que está por detrás da luz que brilha sozinha na escuridão. É o grito da luz que convive com as sombras. É um possível grito de um Nelson Mandela na prisão que coloca em dúvida as suas opções, é um possível choro de desespero de uma Madre Teresa que pergunta a si mesma se vale a pena o seu esforço, é um pensamento obsessivo na cabeça de um qualquer papa bondoso e bem intencionado acerca do real valor da instituição que preside, são as dúvidas de um guru relativamente ao seu valor...

 

Talvez este jogo entre sombra e luz seja o que está por detrás do arquétipo de uma humanidade decaída, de idades de ouro que se perderam... pois no nosso íntimo sentimos que temos em nós mais do que as sombras que nos rodeiam e, contudo, sentimo-nos perdidos nelas.

 

Naturalmente tentamos encontrar a nossa luz, negando as trevas que nos rodeiam e criamos uma sociedade luminosa onde só vale o que traz felicidade. Uma sociedade a la mode Walt Disney em que por um passe de mágica todas as sombras desaparecem e do dia para a noite passamos de criadas mal tratadas a princesas que viverão dali em diante felizes para sempre. Mas neste plano não se vive assim... a felicidade não é um estado a que se chega, nem por um passe de mágica, nem por um acumular de pequenos sacrifícios. A felicidade não é um dissipação das nossas sombras, pois estas estarão sempre presentes. E a humanidade de certa forma já intuiu isso, bastando analisar um pouco uma das muitas versões da história de Lúcifer: o anjo mais elevado e luminoso da hierarquia celestial que sucumbiu à sua sombra. Mesmo onde brilha muita luz, existe a sombra.

 

A felicidade é um estado contínuo que poderá existir no meio da sombra, no meio da angústia, no meio do sofrimento... felizes no sofrimento. Parece de algum modo algo contraditório e ilógico, mas mais uma vez encontramos nos arquivos da nossa humanidade histórias de mártires e santos que morreram a cantar, que morreram a sorrir, de moribundos sofredores que apesar das dores emanavam paz. E esta proeza só é conseguida através do puro amor.

 

Como terapeuta e formador nas áreas das terapias holísticas, ouço-me muitas vezes a falar de amor. Tive sorte de nunca ninguém me perguntar o que é isso do amor. Podia sempre responder que o amor não se explica, que se sente. Era um bom esquema de fuga à questão. Mas quando eu mesmo tentei dar essa resposta a mim mesmo, fiquei frustrado. Depois o fluir da minha vida fez questionar-me ainda mais acerca do que é o amor. Porque é que em dados momentos da minha vida senti amor e capacidade de amar e em outras alturas não? E perguntava o que estou a fazer de errado para não conseguir estar como dantes. Como é que se perde o amor? E cheguei a uma conclusão... o amor é tal e qual a mesma coisa que a felicidade que falamos acima. É um estado contínuo que exige treino da nossa parte... é o estado que resulta do nosso foco no positivo das nossas realidades. Não é algo que se atinge, é um estado que se é ou um estado em que conscientemente nos devemos colocar. Este estado é um estado de aceitação pura, de foco positivo em todas as circunstâncias, de valorização e apreço contínuo. É um estado de não resistência, um estado de entrega, um estado de ser com o fluxo e, em última estância, um estado de ligação com o todo... algo que desde pequenos temos vindo a desaprender. E desaprendemos quando aprendemos a ignorar o nosso sofrimento, a não estar presente com ele. Então o amor pode ser aprendido quando desaprendemos os registos que nos formaram... e querer amar, e querer estar no amor, e querer ser amor e querer ser amado é querer reconstruir quem somos e estar em alinhamento total com a nossa alma e com a luz que dela emana... é querer ser o farol que brilha no meio da escuridão e aceitar e perceber que somos luz na sombra e assumir esse papel... muitos de nós somos faróis que querem brilhar em pleno dia... mas um farol só é farol quando brilha no escuro... aceitar e estar em alinhamento com essa realidade é possivelmente uma solução para a felicidade e é ser amor.

 

No que toca à natureza da nossa alma poderemos adotar várias perspetivas distintas. Podemos dizer que a nossa alma ou espírito na sua origem é algo de muito primitivo e que precisa de um processo de contínuas reencarnações para evoluir e se tornar luz, ou podemos ver que a nossa alma ou espírito já em si tem imensa luz divina mas que por sair de uma fonte divina primieva e se expandir por diferentes planos existenciais pode-se ver coberto pelas vibrações típicas das dimensões por onde passa, à semelhança de um cavaleiro de armadura reluzente que ao passar por um pântano, no seu final, se encontra da cor deste. Por uma série de experiências pessoais e pelo poder de explicação que a última perspetiva me fornece, abandonei já há algum tempo atrás a ideia que somos almas primitivas que precisam de aprender a ser luz através de sucessivas reencarnações. Ao adotarmos a prespetiva de que a nossa alma brilha já de forma divina e sumamente evoluida, percebemos um pouco melhor a situação do nosso farol na escuridão e o sentimento de orfandade espiritual... do nosso grito “Eli Eli Lama Sabachthani?” (Meu Deus, Meu Deus, Porque me abandonaste?)... pois é o mesmo grito do raio de luz que parte com toda a energia do Sol e que passado alguns anos de luz se vê perdido algures no profundo cosmos num planeta escuro longe e afastado da sua fonte sem contudo deixar de ter em si toda a sua natureza luminosa. Mas esse raio de luz sofredor e órfão só será feliz se perceber e aceitar a sua natureza e circunstância, perceber que é luz, focar-se na luz e perceber que a luz joga com a sombra, que a função da luz é iluminar a sombra... que nesse planeta distante é uma das suas fontes de luz. Uma mãe que abraça um filho que chora por o terem empurrado, um pai que provoca uma gargalhada no seu filho, uma funcionária de um bar que serve com um sorriso um pão com queijo, um professor que ouve verdadeiramente o seu aluno... tudo pequenos raios de luz divina a se manifestarem... mas cada um desses raios também acompanhados pelo seu choro. Há medida que cada um desses raios se treinar a ser amor, a estar em amor, a treinar estar alinhado à sua íntima natureza, o mundo aonde eles chegaram irá se tornar mais brilhante. E é por aqui que se entra no processo de ascensão planetária. O planeta ilumina-se naturalmente em cada gargalhada que interrompe um choro, em cada sorriso que é esboçado por entre lágrimas que escorrem... o planeta ilumina-se cada vez que cada um de nós é amor.